top of page

Abordagem Humanizada nas Relações de Trabalho

Todas as empresas, por mais arrojadas e tecnológicas que sejam, são feitas de pessoas. Nossa sociedade, outras organizações, a engrenagem que move o mundo – para além da Natureza que se basta, é claro.



Em que momento passamos a considerar o comportamento mais frio e pragmático – ‘eficiente como uma máquina’, ‘máquina de fazer dinheiro’ – como o correto e o ‘mais profissional’? Onde foi que um jeito mais humanitário de ser, pensar, se relacionar passou a ser visto como uma fragilidade?


São tantos paradigmas que foram e estão sendo quebrados, pré e pós-capitalismo, que há que se ter cuidado ao considerar quais são as práticas verídicas de abordagem humanizada nas relações de trabalho – o que vai além do marketing, da publicidade, do check-list de benefícios comumente valorizados atualmente.


Quando assistimos a documentários ou filmes baseados em fatos reais, temos uma noção de como se deram as relações trabalhistas em outras épocas. Ambientes insalubres, jornadas de até 80 horas semanais, fábricas sem banheiro para pessoas negras, mulheres sendo desrespeitadas e assediadas das mais diversas formas, crianças em trabalhos forçados – resquícios dos tempos de escravidão que infelizmente perduram às escondidas em diversas partes do mundo. Muita coisa evoluiu desde a Revolução Industrial: expedientes de até 8 horas diárias, horas extras remuneradas, férias remuneradas, licenças maternidade e paternidade, licença por motivos de saúde física e mental, contratação CLT, 13º salário, seguro saúde, de vida, odontológico, vale-refeição (e alimentação) são conquistas relativamente novas na história da Humanidade – e precisam ser lembradas e valorizadas.


No entanto, de que adianta gabaritar em todos os benefícios acima – e divulgar orgulhosamente convênios com academias, práticas terapêuticas, ‘ambientes descontraídos com sala de jogos’, máquinas de snacks em cenários artísticos –, se o clima é aceleradamente (in)tenso, as pessoas vivem estressadas, esgotadas, ansiosas por cumprirem as metas do ano, ficam doentes com frequência e mal conseguem aproveitar o que de bom lhes é oferecido além da remuneração financeira?


Qual o valor da embalagem, do que está ao redor, se por dentro as relações remontam ao século XIX? Claro, não estamos colocando todo mundo dentro da mesma caixinha: há as empresas que verdadeiramente se preocupam com o bem-estar do(a)s colaboradore(a)s, o tom das relações interpessoais e corporativas, a forma como as pessoas se cuidam e são cuidadas – sim, hoje a palavra ‘cuidado’ ganha outra relevância. Quem entendeu que gente saudável e feliz trabalha melhor, ‘rende mais’ e ainda faz marketing positivo pode avançar 10 casas no tabuleiro do jogo. Por ‘gente saudável e feliz’ consideramos uma turma diversificada, criativa, com autonomia e talentos reconhecidos, com responsabilidade e senso de participação afinados, que sabem ‘dar tudo de si’ em um momento e relaxar tranquilamente em outro. Gente que não precisa gritar pra se fazer ouvir, que não tem problema em dizer que não sabe nem receio de apresentar uma ideia melhor que a sua.


Gente que não precisa (mais) chegar primeiro e ser sempre o(a) melhor em tudo – que prefere chegar junto, celebrando as vitórias e se abraçando também nos revezes. Gente que brilha sem medo e não tem papas na língua ao dizer pra você brilhar também.


Por outro lado, às vezes no endereço ao lado, ainda existem as companhias que consideram que suas marcas e famas bastam para que ‘suas máquinas de fazer dinheiro’ – entre equipamentos e seres humanos – continuem funcionando sem grandes esforços por parte da pessoa corporativa. Claro que, infelizmente, é vergonhosa a quantidade de gente desempregada em nosso País – gente com talento, com família, que ‘faria qualquer coisa’ para trabalhar em uma dessas empresas ricas em seus relatórios anuais e empobrecidas em suas relações humanas. Mas ter pessoas em desvantagem econômica batendo à sua porta ou aplicando nas vagas de emprego disponíveis não quer dizer que sua organização não precise se atualizar e ser um lugar mais acolhedor, mais justo e digno dos inúmeros pré-requisitos solicitados nas candidaturas. Oferecer um bom salário e alguns benefícios – quando isso acontece – não basta para reconhecer o valor de alguém que está dedicando (ou vai dedicar) boa parte de seu tempo de vida para fazer seu projeto ou empreendimento dar lucro.


É preciso se desvencilhar das amarras da sisudez corporativa e dar espaço para que as pessoas sejam elas mesmas, com suas essências, personalidades e dimensões. Afinal, se até mesmo a ciência da inteligência artificial está investindo tempo e dinheiro para desvendar e assimilar as trilhões de nuances humanas – e expandir a aplicabilidade do machine learning em diversas áreas –, por que algumas empresas insistem em se manter no passado, quando se trata da gestão de pessoas?



Comments


Post: Blog2_Post
bottom of page