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Comando/Controle x Participação/Liberdade

Todo controle é ilusório. Só podemos controlar a nós mesmo(a)s – e olhe lá, ainda assim (achamos que) controlamos apenas uma parte do que somos e fazemos – não dá pra dizer que controlamos o que sentimos, não é?



Para além de (querer) comandar algo, é preciso saber para o que se sente preparado(a) e qual o seu/nosso papel em cada ação e relação.


Há quem conteste qualquer forma de comando e funcione melhor na atuação individual ou na gestão compartilhada. Há quem o aceite apenas de pessoas/profissionais que admira – e que, muitas vezes, possuem credenciais almejadas. E há quem pareça lidar bem com qualquer forma de estrutura, vertical ou horizontal – e, às vezes, até prefira ‘ser comandado(a)’ e não precisar tomar decisões. Assim como há quem goste muito de liderar e quem não faça a menor questão de assumir esse papel – da turma “o que vocês decidirem, pra mim está bom”. Não há certo ou errado, são perfis. Reconhecer qual é o seu, se está feliz com ele ou quer mudar – e quais os perfis de quem está ao seu redor – é um passo estratégico e pode economizar muita energia.


Quem lidera bem um time bom, com liberdade e responsabilidade compartilhada, às vezes nem precisa ‘comandar’, muito menos controlar – o barco segue em sincronia, com uma rota bem traçada e, vez ou outra, uma mudança de roteiro.


Há que se observar que o conceito de liberdade não significa “cada um fazer o que quer e quando quer, sem se importar com as outras pessoas, com o mundo”. Liberdade abrange, sim, a ideia de se fazer o que o coração sente e o corpo pulsa, o que a mente cria e os olhos alcançam – mas a ela está associado o conceito de responsabilidade.


Do latim libertas, um dos significados da palavra liberdade é a condição e o direito de se fazer escolhas de forma autônoma, de acordo com sua/nossa própria vontade. Dentro de uma sociedade (ou de uma empresa), no entanto, há regras e leis que pautam as boas condutas de convívio. Algo como ‘minha liberdade vai até onde começa a sua’. A constituição brasileira nos propõe uma série de condições e, ao mesmo tempo, nos assegura várias ‘liberdades’ – que infelizmente ainda não vemos em alguns países.


Liberdade de pensamento, opinião e expressão, de ir e vir, de exercer a(s) religiosidade(s), das escolhas de gênero, afeto e até do próprio nome. Perceba que, naturalmente, o respeito já ocupa um lugar aqui. Não há liberdade verdadeira sem respeito pleno.


Independência, autonomia, vontade. Em estudos relacionados ao filósofo Aristóteles, diz-se que ele definia a liberdade como a possibilidade de se realizar escolhas orientadas pela vontade, na busca pela felicidade – e que o conhecimento é a ferramenta que possibilita ampliar as possibilidades de (boas) escolhas, tornando as pessoas (mais) livres. E por que, então, as crianças brincando (sem tantos conhecimentos externos adquiridos) nos parecem tão livres...?


Talvez Sartre explique: para ele, a liberdade é uma condição nata do ser humano, de moldar sua própria existência de acordo com suas escolhas.


E como tudo isso se aplica ao ambiente de uma empresa, projeto ou empreendimento coletivo?


O bom senso talvez seja uma das melhores palavras pra se expressar essa delicada e importante relação em território corporativo – ainda que com colaboradores trabalhando à distância –, tanto para quem delega e abre espaço para o exercício da autonomia quanto para quem usufrui dela. Gerenciar o próprio tempo, tomar decisões para administrar as prioridades, atender aos prazos, procurar ser criativo(a), assertivo(a) e atuante (em vez de se acomodar, já que “ninguém está vendo”), cultivar uma boa comunicação com todo(a)s e (tentar) lidar bem com imprevistos são algumas das responsabilidades que acompanham as liberdades nesse cenário.


Ninguém nasce sabendo e não se aprende isso da noite para o dia – mas a autonomia é uma grande vantagem, para além das relações de trabalho, e pode ser ensinada/praticada/cultivada diariamente.


A sensação de liberdade naturalmente vem quando as coisas fluem e ninguém fica bradando a ‘voz de comando’ pra cima de você/nós, certo? É como o veleiro que desliza pelas águas em um passeio livre e dá a impressão de que não há ninguém no controle – apenas o vento – mas, ao se aproximar da embarcação, percebe-se que há vários detalhes, equipamentos e dinâmicas pra se manter o simples curso ‘adiante’, um constante olhar 360º para cuidar de possíveis imprevistos e evitar acidentes, monitoramento do tráfego marítimo e instrumentos de navegação, gestão de mantimentos, água potável, resíduos – entre outros itens no checklist. E, no caso de uma competição ou expedição com tripulação, ouve-se a voz de comando da(o) capitã(o) – pois, mesmo que todo(a)s estejam literalmente no mesmo barco e saibam exatamente o que estão fazendo, enquanto cada um(a) está focado(a) em sua própria função, alguém precisa olhar o ‘todo’ rumo ao destino (objetivo) no horizonte.


Como um maestro que rege a orquestra de musicistas habilidoso(a)s – por mais que sejam talentoso(a)s, alguém cuida da harmonia geral.


Nem toda voz de comando é inevitavelmente limitante ou castradora – e é preciso cuidar para que não seja mesmo. Ela pode vir em tom de ‘preciso de você’ para (me ajudar a) cumprir essa missão, ‘estamos junto(a)s’ nesse desafio, ‘há muito o que fazer e você é bom/boa nisso”, vamos lá que é hora de brilhar!


O melhor controle que podemos ter é sobre nossos próprios pensamentos e emoções, ações e comportamentos – e, sim, sobre nossas liberdades concedidas e conquistadas.

Como o veleiro de vento em popa, ter tudo (nosso) ‘sob controle’ facilita nossa navegação e a de quem está ao nosso lado também.


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